Brownsea ou Humshaugh?
Brownsea ou Humshaugh?
Qual o Primeiro Acampamento Escoteiro
da História do Movimento Escoteiro dirigido por Baden-Powell?
1907 foi sem dúvida um ano importantíssimo na vida de Baden-Powell.
Visitou o Egito e o Sudão, inspecionando a Cavalaria do Exercito Britânico.
Publicou os “Sketches in Mafeking and East Africa” (desenhos em Mafeking e no Este da África) – exibição na “Brunton Gallery” de Londres – seu passatempo predileto.
E, foi promovido a Tenente-General do Exército.
Durante suas férias de verão em maio, em Knocklofty, na Irlanda conheceu o casal Charles van Raalte que insistiu que visitasse a Ilha de Brownsea, em Dorset, no extremo sul da Inglaterra. Era a menos de três horas de trem de Londres e lá pegaria um barco a vapor para Poole. Visitou o local com seus irmãos, sem que o casal soubesse e, achou maravilhosa a floresta de pinheiros. De forma oval e irregular, com cerca de dois mil metros de cumprimento, por menos de mil metros de largura. Total isolamento para os seus propósitos. Escreveu ao casal van Raalte que gostaria de levar alguns jovens à ilha, para acampar durante as férias de verão de agosto. Recebeu a resposta imediatamente de que a oferta estava de pé e enviaram a Baden-Powell uma recente biografia do casal contando a história da ilha, com doze ilustrações à cor.
Quando mais Baden-Powell conhecia Brownsea, mais ele se convencia de que era o local ideal para fazer a sua primeira experiência.
Os rapazes foram selecionados a partir de diversos lugares. Baden-Powell queria que fossem de diferentes padrões de idade, sociais e escolaridade. A carta-convite foi enviada sem nenhuma recusa. Todos gostariam de conviver com o herói de Mafeking por uma semana inteira.
Quanto ao material para o acampamento, solicitou emprestado à Boy’s Brigade.
A lancha Hyacynth levou os jovens a cruzarem o canal no dia 29 de julho de 1907.
O programa do acampamento foi uma mistura das idéias de Baden-Powell, com o que ele tinha executado com os Cadetes de Mafeking. Apesar dos jovens terem sido divididos em equipes com nomes de animais, terem escolhido seus líderes, nenhum Código ou Lei foi-lhes apresentado e, não foi pedida nenhuma Promessa!
As conversas de final de dia foram em forma de Fogo de Conselho, com canções tradicionais inglesas.
Em 1908, Baden Powell foi nomeado já como Tenente-General, Comandante da Divisão Territorial do Território da Northumbrian, no extremo norte da Grã-Bretanha.
Sua sede ficava em Humshaugh, Northumberland.
A publicação de Scouting for Boys (Escotismo para Rapazes) e da revista “The Scout” (O Escoteiro), deram o impulso necessário no início do Escotismo.
Scouting for Boys começou a ser publicado em janeiro de 1908, e sob a forma de livro, em maio desse mesmo ano. A revista começou a circular no dia 14 de abril de 1908. E, para incentivar mais as vendas, organizou-se um concurso para um Acampamento com Baden-Powell em pessoa. Para quem conseguisse mais assinaturas da revista. Os “Trinta Galantes”, como a revista chamava os ganhadores do concurso, fariam um Acampamento sob a Chefia de Baden-Powell.
O Acampamento de Humshaugh foi o primeiro Acampamento Escoteiro da História do Movimento Escoteiro, a ser dirigido por Baden-Powell, com jovens que conheciam a Lei Escoteira e tinham realizado a Promessa Escoteira.
E, o próprio Baden-Powell reconhecia este fato, e gostava.
O Jamboree da Maioridade de 1929 (1908 + 21 anos) tem como ponto de partida o Acampamento de Humshaugh e foi sempre reconhecido pelo próprio Baden Powell.
O que aconteceu então?
Baden-Powell organizou para atender os países de todo o mundo que abraçaram a causa Escoteira, em Londres, o Boy Scouts International Bureau (BSIB) (http://www.mallemont.redel.com.br/fogo_de_conselho/bsib/bsib.htm).
E, cuidou carinhosamente e pessoalmente pelo seu desenvolvimento.
A conferência de 1938, em Edimburgo, às portas da Segunda Guerra Mundial, confirmou o nome de John Skinner Wilson, amigo de Baden-Powell, como seu principal executivo.
Baden-Powell falece, como sabemos, pouco depois, em 1941.
Wilson, que esteve inclusive no Brasil em 1948, fez questão de manter as diretrizes completas de Baden-Powell, até quando se retirou em 1953 e a sede mudou de nome, passando a se chamar World Bureau, e também de país – a Suíça.
E, de lá para cá, Brownsea, e não Humshaugh (pronuncia-s “Hums-Off”), é considerada como o Primeiro Acampamento de Escoteiros que Baden-Powell dirigiu.
Moacyr Mallemont Rebello Filho
Escrito por Coruja Anã às 21h59
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Os Sete Perigos
Por "John" Thurman
Tradução José Gomes Cavaco
Publicado no Sempre Alerta!
De julho e agosto de 1957(?) , páginas 6 e 7.
Recuperado pelo Chefe Maurício Moutinho
Existem sete perigos para o Escotismo, para os quais, me parece, devemos estar alertas e tomar cuidado:
1. Complacência, do tipo de pessoas que pensam: "há cinqüenta anos temos trabalhado assim e temos feito um bom trabalho, portanto continuemos assim". Recordemo-nos que o trabalho para os rapazes de hoje tem que ser feito pelos homens do presente. Estou tão orgulhoso, como qualquer outro Escotista, do nosso passado, mas isso não nos leva a parte alguma. Há, hoje, muito mais a ser feito do que houve em qualquer outra época e o máximo que o passado pode fazer para nós é inspirar-nos para um maior esforço;
2. Centralização. Acampamentos Nacionais, Regionais e Jamborees são muito bons, mas quando muito freqüentes, podem ser desastrosos. Devemos dar ao Escotista a maior oportunidade possível para trabalhar com a sua Tropa e infundir-lhe os bons princípios e não juntar os rapazes em grandes massas para um grande espetáculo. Às vezes existe tal número de atividades organizadas pelo Distrito ou Região que praticamente não resta tempo ao Escotista para trabalhar com as Patrulhas ou Alcatéias;
3. Super administração e não suficiente adestramento. Gostaria de sugerir-lhes dar uma olhadela nos orçamentos e balanços para verificar se aquilo que gasta com papelada e administração está equilibrado com o que se emprega no adestramento técnico. Ambas as coisas são necessárias, porém mantenhamos o equilíbrio.
4. Seriedade Demasiada. O Escotismo é algo sério, contudo, uma das grandes coisas é a alegria de participar dele, isso tanto para os dirigentes como para os rapazes. Em alguns países, há o perigo de se pensar em termos educacionais ou psicológicos e, enquanto fazemos isso, perdemos muito da nossa condição de "amadores". E vocês todos sabem que como amadores somos bons, mas como profissionais somos péssimos. Somos uma parte complementar na vida do rapaz; complementar na escola, dos pais, da igreja, e, mais tarde, do trabalho.
5. Exclusividade, o perigo de pensar que "os chefes devem provir do próprio Movimento". Penso que necessitamos de gente de fora, com diferentes experiências - homens de bem que tenham a faculdade de crítica construtiva e que tragam sangue fresco para o Movimento;
6. Austeridade demasiada. Acho que tendemos a nos fazer demasiado respeitáveis e a nos converter em um movimento para apenas os rapazes bons, em vez de levar o Movimento para os rapazes que dele necessitam. O Escotismo nasceu em 1907 entre meninos pobres e, se economicamente os rapazes melhoraram desde então, por outro lado moral e espiritualmente existem rapazes tão pobres como naquela época, que necessitam do Escotismo.
7. Trabalhar para fazer super escoteiros. Devemos estar conscientes, no que diz respeito a adestramento, de não tratar de começar um curso a partir de onde deixamos o anterior, sem pensar que necessitamos começar e recomeçar sempre pelas bases e os princípios para progredir a partir destes.
Para terminar, recordemo-nos que Baden-Powell, em 1938, proclamava com orgulho e alegria o número de 3 milhões e meio de Escoteiros no mundo. Agora podemos ver um movimento que ultrapassou os 8 milhões, devido justamente à sua simplicidade e ao prazer dos rapazes que tem sido contínuo.
Sem dúvida, Baden-Powell tocou o dedo em algumas das mais formidáveis idéias e práticas que levam os rapazes a segui-las com entusiasmo, e nos métodos, e modo de manejar e guiar os rapazes. É por isso que devemos nos manter o mais possível dentro da simplicidade, da alegria e do entusiasmo que ele inspirou.
Os únicos capazes e possíveis de pôr o Escotismo a perder são os próprios chefes e dirigentes.
Se nos tornarmos arrogantes, complacentes e a nos fazermos passar por demasiado auto-suficientes, então - e apenas com essas coisas - poderemos arruinar o Movimento.
Nota da Redação: O presente artigo é parte de uma palestra pronunciada pelo Chefe de Campo de Gilwell, quando esteve na Austrália. Aqui reproduzimo-la pelo grande interesse e importância dos conceitos emitidos;
Escrito por Coruja Anã às 16h38
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O MOVIMENTO ESCOTEIRO COMO PRÁTICA E COMO PEDAGOGIA
Texto de Jorge Carvalho do Nascimento (*)
A memória dos participantes do movimento escoteiro não pode ser desconsiderada como fonte a ser utilizada para a compreensão da Pedagogia de Baden-Powell. Os historiadores necessitam recorrer a tal memória e confrontá-la com outras fontes para interpretar o processo de organização do movimento escoteiro e as suas práticas. Os militantes do Escotismo são sujeitos históricos que atuaram tomando por base o projeto do fundador do movimento e as limitações que a realidade lhes impunha, em face das condições de cada tempo e lugar, dos valores que portavam e das escolhas feitas por estes em distintas oportunidades. Somente desta maneira podemos entender a inadequação de algumas interpretações generalizantes, que consideram apenas fontes produzidas pelo Estado e não entendem que os sujeitos históricos que militaram no movimento escoteiro não eram unânimes diante da totalidade dos princípios estabelecidos pelo lord Baden-Powell e dos usos que o Estado pretendeu fazer do Escotismo. Assim, os escoteiros, em diferentes oportunidades, também divergiram entre si, estabeleceram distintas formas de alteridade, produziram identidades diversas e percorreram caminhos que nem sempre foram os mesmos.
Na sua Pedagogia, Baden-Powell rejeitava a idéia de que os escoteiros deveriam aprender ordem unida, não vendo em tal prática qualquer tipo de benefício para o desenvolvimento físico dos jovens. Não considerava que colocar jovens em forma, fazer com que estes dessem voltas e mais voltas, marchas e contra marchas fosse um meio eficaz de desenvolver o jovem fisicamente ou mesmo levá-lo ao aprendizado da disciplina. Ao contrário, afirmava que existiam, em tal prática, riscos de aparecimento de dilatações da aorta, do coração ou qualquer outro transtorno dessa natureza. Além disso, considerava que o treinamento militar não era Educação, mas sim apenas instrução. Ademais, o fundador do Escotismo se opunha aos exercícios militares, afirmando que “alguns chefes escoteiros menos capazes, não podendo aprender os elevados objetivos do Escotismo (a bem dizer, o desabrochar da individualidade) e outros, mesmo tendo-o percebido, não possuindo capacidade para ensiná-lo, caem todos eles na ordem unida, como uma solução fácil para conseguir que seus jovens exibam certa eficiência em uma parada ou apresentação coletiva”[1].
A História necessita entender que em 100 anos foram múltiplos os projetos de Escotismo postos como instrumentos apropriados à Educação de crianças e jovens. É necessário que se recuperem os sinais deixados por essas práticas, dentre eles os documentos biográficos e autobiográficos dos sujeitos do movimento escoteiro. É importante buscar o memorialismo escoteiro, mesmo quando os memorialistas forem autores que não obtiveram consagração, levando em conta o papel de cada um deles.
A partir de 1907, quando Robert Baden-Powell iniciou as atividades do movimento escoteiro, duas formas de praticar o Escotismo se consolidaram. A primeira tinha um forte enraizamento na compreensão do movimento escoteiro como Pedagogia; a segunda colocava a sua ênfase apenas nas práticas, sem maiores preocupações com os fundamentos pedagógicos do Escotismo. A primeira escola valorizava a consciência social, a transmissão dos valores, inferindo um método escoteiro que tinha o seu foco sobre a Educação. A segunda não dava prioridade a tais aspectos, valorizando sobremodo o treinamento, as práticas de adestramento. A última tendência foi, muitas vezes, criticada pela primeira que considerava este tipo de Escotismo uma espécie de jardim de infância do escoteiro. Já os adeptos desta última tendência costumavam afirmar que os primeiros transformavam o movimento num jogo de perseguição ao arco-íris. Os adeptos do Escotismo como Pedagogia, na prática, em diferentes oportunidades, fizeram menos sucesso que os adeptos do treinamento.
A interpretação dos registros referentes a essas tendências possibilita que se considere a voz de todos os agentes do movimento escoteiro. O Escotismo proposto por Baden-Powell, na verdade, não dispensava nenhum desses dois aspectos. Para interpretá-lo, é fundamental considerar os seus elementos teóricos, como Pedagogia destinada à fixação de valores, e as suas proposições de práticas que objetivavam o adestramento. O movimento criado por Baden-Powell foi singular desde o princípio, pois o seu fundador falou diretamente aos jovens, dispensando intermediações, ensinando através dos jogos, da vida ao ar livre, do compromisso voluntário, da auto-afirmação pessoal, da auto-Educação. Através da utilização dos diferentes vestígios deixados pela prática do Escotismo é possível trilhar ou seus caminhos, identificando as várias referências históricas.
Uma boa parte dos estudos a respeito do Escotismo colocou o movimento fundado pelo lord Baden-Powell no âmbito das interpretações que denunciaram os movimentos nacionalistas dos primeiros 50 anos do século XX e a escola capitalista durante as décadas de 60, 70 e 80 da mesma centúria. A maioria dos analistas viu o Escotismo como espaço de reprodução de uma cultura conservadora, fundada sobre valores cívicos. Talvez seja necessário repor o debate sobre o Escotismo, tal como se fez nos anos 80 e 90 com o movimento da Escola Nova, para que, antes de qualquer coisa, sejamos capazes de compreender a Pedagogia escoteira, antes mesmo de denunciá-la. Há ainda muita informação sobre o assunto a ser analisada, a começar pelas práticas do movimento escoteiro. Talvez esteja na hora de atenuar as análises que centraram os seus argumentos, quase que exclusivamente sobre a denúncia de supostas relações promíscuas entre o movimento escoteiro e o Estado autoritário, substituindo o foco por uma tentativa de compreender as práticas culturais escoteiras. Assim, o Escotismo poderá ser iluminado como uma cultura que levou a incorporação de valores, comportamentos e hábitos centrados na lógica do auto-governo.
É possível acrescer àquilo que tem sido uma das formas de análise corrente dos estudos de História acerca do movimento escoteiro, a observação que faz, a partir do trabalho de Eric Hobsbawm, Maria Cecília Cortez Christiano de Souza, para explicitar os problemas que envolvem a memória que se produziu em torno da escola e as distintas interpretações dos historiadores: “há momentos cruciais em que uma tradição é inventada, momentos fortes da história em que certas versões e certas formulações dos acontecimentos se cristalizam e passam a ser vividas como regras incorporadas, tornando-se ecos não reconhecidos dos passados. Principalmente quando os sujeitos não tenham articulado essa tradição ou distanciado desses passados de forma suficiente para reconhecer seus traços na atualidade, eles se tornam fundantes de formulações e práticas não discutidas”[2].
NOTAS
[1] Cf. BADEN-POWELL, Robert Stephenson Symth. Guia do chefe escoteiro. Aids to Scoutmastership. Tradução de Gen. Leo Borges Fortes. 5ª. ed. Porto Alegre: Ed.Escoteira, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 70.
[2] Cf. SOUZA, Maria Cecília Cortez Christiano de. Escola e memória. Bragança Paulista/SP: IFAN-CDAPH/Editora da Universidade São Francisco, 2000. p. 55.
(*) Autor do Livro "A Escola de Baden-Powell"
Escrito por Coruja Anã às 10h29
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UEB ou AEBP – “Muito barulho por nada” (comédia de William Shakespeare)
Texto do Chefe Moacyr Mallemont Rebello Filho (in memorian)
Nos primeiros anos do Escotismo no Brasil, não havia nenhum tipo de organização a nível nacional que representasse os Escoteiros do Brasil, em todas as esferas da sociedade. Baden-Powell enfrentou os mesmos problemas na Inglaterra logo depois do Acampamento de Brownsea. Apesar de ter levado Escoteiros Católicos para este Acampamento, a oposição fortíssima veio de Roma, que queria impedir o avanço do Anglicanismo. Pouco antes de Baden-Powell ter nascido, os Católicos eram proibidos de se reunirem para rezar. Coisas de Henrique VIII, que sua filha Ana Bolena oficializou em 1536, através da nomeação do Arcebispo de Canterbury.
Em 1914 fundou-se a “Associação Brasileira de Escoteiros”, em São Paulo. Misto de “Militarismo” com “Ordem Unida”, como as “Brigadas Escoteiras”.
Só em 1916 que o Papa Bento XV autorizou, pelo esforço do Conde Carpegna (http://www.mallemont.redel.com.br/fogo_de_conselho/bcarpe/carpe.htm) a fundar o Escotismo Católico na Itália. No ano seguinte, fundava-se no Rio a Associação de Escoteiros Católicos de São João Baptista da Lagoa, em Botafogo.
A fundação da UEB em 1925 só se concretizou de fato em 1950. E, olhe lá... Era a junção da Federação de Escoteiros de Terra, Federação de Escoteiros do Mar, Federações Estaduais, etc.
A única entidade reconhecida pelo BSIB (Boy Scout International Bureau), http://www.mallemont.redel.com.br/fogo_de_conselho/bsib/bsib.htm, criada por Baden-Powell em Londres, era a Associação de Escoteiros Católicos do Brasil. O Brasil participou com uma excelente delegação no Jamboree de 1929. conhecido como o “Jamboree da Maioridade” (21 anos após a publicação do Aids for Scouting). Isto só foi possível porque a Associação de Escoteiros Católicos do Brasil cedeu espaços a outras entidades brasileiras de organização de Escoteiros.
Em 1955, no ano que entrei para o Escotismo, meus companheiros do Colégio Andrews, que ficava na Praia de Botafogo, iam com o uniforme de Escoteiro por debaixo do uniforme escolar. O Luiz Eduardo vestia um uniforme diferente, de mangas compridas. Perguntei-lhe porque. “ – É porque faço parte de uma outra Associação. Dos Escoteiros de Santa Therezinha”, cuja sede fica na Igreja de Santa Therezinha, na saída do Túnel Novo, em Copacabana. Eu vou ao Jamboree de Niagara Falls, no Canadá”.
A UEB era então a única representante do Brasil no World Bureau (WB), que sucedeu ao BSIB, e se mudou para Genebra, na Suíça. A situação se inverteu e a UEB cedeu espaços para a “Santa Therezinha”. Coisa de oportunismo puro, já que o Chefe do Santa Therezinha, César Pinto Lima de Sá Carvalho era sobrinho do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jayme de Barros Câmara. Ele sabia que não podia ser incomodado. O Chefe da Delegação foi o Carlos Gusmão de Oliveira Lima, Comissário Executivo Nacional e o seu Assistente o Chefe César, que vestia como todos da delegação, o uniforme da UEB. Tenho a foto para comprovar.
Conheci por volta de 1960 o Chefe César e a Associação de Santa Therezinha. Impressionante! Do melhor e do mais bonito, mas não estavam usando nenhum distintivo da UEB.
Em 1989, combinei por telefone aqui de Santa Catarina fazer a Missa do Centenário da minha amada Avó nessa mesma Igreja. Ela era devota de Santa Therezinha. O Chefe César não estava mais entre os Escoteiros. Pedi ao Pároco que me mostrasse a sede. Fiquei com pena...
A reflexão sobre a AEBP, levou-me a escrever este artigo. O título da comédia de Shakespeare cabe como uma luva. Não vale à pena nos estressarmos por tão pouco. O importante é seguirmos com o verdadeiro “Espírito Escoteiro”, tratando como Irmãos Escoteiros, sem se preocuparmos com qualquer tipo de discurso que não nos faça bem.
O importante para o Brasil é ajudar aos jovens a se tornarem MELHORES CIDADÃOS!
Escrito por Coruja Anã às 20h49
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Idades do Escotismo: A Coexistência das Culturas Escoteiras
Texto de Maurício Moutinho da Silva
Ao longo do tempo, os diversos estudos sobre o escotismo privilegiaram o método educacional, sua eficácia e mesmo inferindo propostas político-ideológicas antes mesmo de considerar a proposta político-pedagógica do Movimento.
Em recente estudo, Nascimento1 descortinou algumas práticas de Educação extra-escolar do Escotismo, evidenciando a necessidade de que o historiador da Educação resista “às tentações do julgamento do passado e tente extrair dele apenas os sentidos que originalmente ali estavam postos” e assim “poder compreender os marcos próprios à escola como agência educativa e aquelas de outros espaços, organizadas pelas práticas da vida social”, como no caso, o Escotismo.
Destaca, ainda, que tal como na escola, o Movimento Escoteiro é um lugar de memória. Ao fazer tal afirmação, Nascimento estabelece convergência com Maria Cecília Cortez Christiano de Souza, cuja percepção ressalta que “quando o olhar pode atravessar a espessura do tempo, distingue vestígios reconhecíveis de sua história” 2.
Nascimento vai ao cerne da questão cultural e identitária do Escotismo ao considerar fundamental “inventariar as práticas do movimento escoteiro, compreendendo ser este um importante objeto da História da Educação, buscando a sua etnografia, as suas evocações, a sedução produzida por este movimento na memória daqueles que foram escoteiros e escotistas”. Entra-se, portanto, no âmbito da história oral, além da documental.
Entretanto, devido à grande distribuição geográfica, descentralização administrativa e contato com diferentes ambientes sociais, cada grupo escoteiro desenvolve não somente uma identidade comum a todos os demais, baseada na manutenção de marcos simbólicos, uniformes e cerimônias “rituais”. Em coexistência, há o desenvolvimento de uma cultura local, própria, que é transmitida oralmente aos novos associados. Genericamente, cada Grupo reconhece esses fazeres como sendo parte integrante de suas tradições e, portanto, elementos-chave de sua identidade, diferenciando-se, em grande parte, dos outros Grupos.
Ao longo do tempo, alguns aferram-se a determinadas práticas, rejeitando quaisquer outras que venham a surgir. É neste ponto que as “idades” da prática do escotismo vão se distanciando. À medida que novos procedimentos vão sendo implementados pela organização central, são aceitos e rejeitados simultaneamente por diferentes Grupos, gerando práticas diferentes.
Procurando acomodar essas tendências, a administração central da União dos Escoteiros do Brasil tenta implementar reformas parciais e lentas na tentativa de convencer aos mais resistentes, dando ensejo as várias práticas simultâneas. Não por acaso, há dezenas de variações dos uniformes e trajes escoteiros possíveis e corretos de serem usados. Aliás, a própria existência da União dos Escoteiros, como união de fato, só veio ao longo de mais de duas décadas de convencimento e incorporação de Federações, Associações, Conselhos e outras entidades escoteiras.
O uso da palavra “idade” entre aspas tem um sentido especial nesta discussão. Não se trata de idade cronológica, mas uma referência da época em que cada prática deixou de se adaptar, ou seja, de quando o Grupo “parou”. Nesse sentido, a referência é o presente e seus procedimentos correntes, tornando-se a idade diferente daquela estabelecida pela data de sua fundação. Em outras palavras, um Grupo Escoteiro “diferente de nosso tempo atual”.
Como exemplo, cito uma experiência que vivemos há cerca de uma década com um Grupo Escoteiro no sul do Estado do Pará, que usava manuais abandonados pela União dos Escoteiros na década de 60. Aquele Grupo, embora seja do ponto de vista cultural inteiramente escoteiro, era típico daquela década, mesmo existindo e prosperando nos anos 90. E assim ocorre por todo o país, com Grupos mais ou menos isolados ou chefiados por adultos refratários a mudanças, vivendo de acordo com os manuais escritos por Floriano de Paula (escoteiros) e Carlos Gusmão de Oliveira Lima (lobinhos), e usados nas décadas de 50 e 60 ou de Luiz Paulo Maia, das década de 70 e 80. Muitos desconhecem a organização nacional e servem-se apenas da prática escoteira que vivenciaram na juventude e, normalmente, usam a literatura antiga, até então arquivada.
Como há público para essas variantes da prática do escotismo, todos podem coexistir mais ou menos pacificamente, sem perderem a eficácia como entidades educacionais e de membros do Movimento Escoteiro.
É difícil afirmar se a manutenção inalterada e impermeável, por tempo excessivo, das tradições escoteiras locais é ou não prejudicial a existência de um Grupo Escoteiro, sem que cada caso seja analisado. Mas, de todo modo, convém não esquecer o alerta de Jean Cassaigneau, secretário do Bureau Mundial de Escotismo: das tradições, deve-se guardar a chama e não apenas as cinzas.3
NOTAS
1. NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Escotismo, História da Educação e Memória, Blog dos Jaguatiricas, consultado em setembro de 2007;
2. SOUZA, Maria Cecília Cortez Christiano de. Escola e memória. Bragança Paulista/SP: IFAN-CDAPH/Editora da Universidade São Francisco, 2000. p. 7;
3. CASSAIGNEAU, Jean, Palestra no Centro Cultural do Movimento Escoteiro, agosto(?) de 2005
Escrito por Coruja Anã às 16h15
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Quantos Estiveram no Acampamento de Brownsea?
Texto de Rubem Süffert
No ano em que comemoramos os 100 anos do Acampamento de Brownsea, é interessante a análise de que participantes estiveram com B-P nessa primeira experiência.
Comecemos com os adultos: Conta William Hillcourt, no seu livro “Baden-Powell – As Duas Vidas de um Herói”: “Para ajudar-lhe a dirigir o acampamento B-P convenceu a seu velho amigo, ‘O Rapaz’ McLaren, de unir-se à expedição. A seguinte preocupação de Baden-Powell era a equipe para o acampamento. Enviou outra carta ao capitão da Brigada de Rapazes de Bournemouth, Henry Robson: ‘Provavelmente Você possa aconselhar-me se devo adquirir barracas de campanha e material para cobrir pisos, em Bournemouth ou Poole, para essa semana e a que preço. Também se possa conseguir um empresário para fazer-se responsável pela alimentação e cozinha.’
Robson esteve de acordo em ajudar em tudo que fosse possível. O equipamento ele mesmo providenciaria. Para levar a comida e cozinhar, pediria a seu amigo George Walter Green, Capitão da 1ª Brigada de Rapazes de Poole, conseguir um cozinheiro profissional e fazer os arranjos para enviar os alimentos para a ilha - seria uma coisa simples: a firma de Green estava no negócio de padaria e alimentação.
William Stevens, Oficial-Chefe dos Guarda-Costas de Sandbanks, foi convidado por B-P para dar uma demonstração de 1ºs socorros.
Em seu livro “Os Primeiros Dez Anos”, publicado em 1948, pela East Anglian Daily Times com 88 páginas, Sir Percy Winn Everett (1870 a 23/2/1952) escreve que ajudou ao B-P na organização do acampamento e das reuniões dos meninos. Foi certamente responsável pelas duas reuniões dos participantes na casa de B-P em Pax Hill em Hampshire e na vinda dos meninos para o acampamento com B-P. Ele esteve no acampamento dias 8 e 9 de agosto. Assim pareceria que o “testemunho” de Everett no que se refere aos participantes seria o mais exato disponível, mas, de todas as fontes encontradas, para não relaciona Charles Christian Simon Rodney da Patrulha Touro, enquanto outras fontes da época comentam especificamente os quatro irmãos Rodney.
Simon Rodney nasceu em 26 de julho de 1895, e assim, no Acampamento de Brownsea teria recém completado os 12 anos. Faleceu em 1980. Alguns o citam como o mais velho dos quatro irmãos Rodney que estiveram em Brownsea, mas isso não era realidade, já que somente Williams era mais novo que ele. Também parece não ser razoável o argumento de alguns para que tenha assinado o agradecimento aos Van Raaltes, quando foi buscar seus irmãos.
Banden-Powell, em alguns artigos, chega a se referir a uns 20 rapazes, não desejando fechar esse assunto. (1)
Publicação oficial da Organização Mundial do Movimento Escoteiro (WOSM), a História do Escotismo reitera 20 membros em Brownsea, mas faz o absurdo de citar o sobrinho de B-P, Donald Ferlys Wilson Baden-Powell, com 9 anos e nove meses de idade, como um dos adultos no Acampamento. Na realidade, atendendo ao pedido da cunhada viúva, B-P o levou como seu Ordenança pessoal.
Mas, esse parágrafo do livro de Hillcourt, mostra que Donald estava bem integrado nas atividades dos rapazes: “Mesmo Baden-Powell foi vítima do sentinela em um piquete noturno, em um de seus intentos de observar uma Patrulha. Foi descoberto por seu sobrinho Donald, agarrado perigosamente em um galho de árvore, acima de sua cabeça.” O mesmo livro destaca que das seis barracas, uma foi usada por B-P e outra por McLaren. Então, Donald acampou com uma das quatro patrulhas. (2)
Lazlo Nagy, Secretário-Geral da WOSM, em seu livro “250 Milhões de Escoteiros” também se refere a 20 rapazes, na linha da posição oficial da instituição.
Por sua vez, tanto publicações oficiais de Gilwell Park citam 22 rapazes, como William Hillcourt no livro “Baden-Powell – as Duas Vidas de um Herói”, citam a relação de 21 rapazes mais o sobrinho de B-P, Donald, conforme lista em anexo. Como fonte, Hillcourt cita o “The Scout” de 30 de maio de 1908 e a folha de autógrafos entregue ao proprietário da Ilha e doada a Hillcourt.
Cita Hillcourt: “Antes de comemorar o vigésimo primeiro aniversário do Movimento, havia outro vigésimo primeiro aniversário a comemorar, o do Acampamento de Brownsea, em 1907, onde se plantou a semente que havia crescido até se transformar no Escotismo.".
Baden-Powell pôs a trabalhar a Sra. Wade para localizar os rapazes que haviam acampado com ele em Brownsea e ele mesmo mandou os convites. Descobriram que quatro dos rapazes morreram na 1ª Guerra Mundial e que outro havia morrido depois por envenenamento de gás durante a Guerra e que mais três haviam falecido desde então. Quatro emigraram para ultramar. Doze rapazes estariam ausentes. E também o ajudante de Baden-Powell no acampamento, seu velho amigo “O Rapaz” McLaren, que faleceu em 1924.
Esta foto do The Scouter de Agosto de 1929, relaciona alguns dos presentes como: Atrás: G Green (Oficial da Boys Brigade); B Watts; P Medway; Percy Everett (adulto em Brownsea) Na frente: B-P; A Primmer; T Bonfield; J Vivian; H Robson (Oficial da Boys Brigade); R Giles; D Baden-Powell; H Noble
Em 28 de julho de 1928 os Baden-Powell receberam os restantes dez (10 + 12 = 22!) rapazes de Brownsea, agora homens feitos, para um almoço em Pax Hill. Estiveram acompanhados por Percy W. Everett, que esteve com eles nos últimos dias do acampamento e que havia se tornado um dos fiéis ajudantes de B-P. Desfrutaram de um alegre almoço com uma quantidade de pequenos discursos. Tinham muito que falar. Vinte e um anos havia sido um período longo de tempo. O mundo se havia convertido em algo diferente.”
Mais um Jovem Participante de Brownsea
No número do Jubileu do “The Scouter” de julho de 1957, há um artigo de Arthur Broomfield sobre Brownsea (citado na pág. 574 do livro de William Hillcourt). A família de Broomfield tinha se tranferido para a Ilha de Brownsea em 1897. Seu pai era um dos 120 empregados dos Van Raaltes. Arthur Broomfield disse que usava o barco do seu pai a fim de ir à escola. Em 1907 seus irmãos e irmãs mais velhos tinham crescido e saído da ilha, e assim que teve pouca companhia nos feriados de verão, que foi quando Baden-Powell chegou à Brownsea. Apesar do aviso do seu pai de que deveria permanecer longe do acampamento a não ser que fosse convidado, Arthur foi diariamente observar o local que estava sendo preparado e então, quando os campistas chegaram, remou para próximo no barco do seu pai, tendo feito amigos com os alguns dos rapazes que acampavam, e começou a tomar parte em algumas das atividades escoteira e realizar algumas provas. O Sr. Broomfield descreve de seu primeiro encontro com B-P: “Eu tinha alcançado o ponto onde avistava o acampamento quando eu ouvi alguém me chamar. Eu olhei para baixo e vi um homem se debatendo num brejo. Quanto se aproximou de mim eu vi que era Baden-Powell mesmo. Depois eu vi Baden-Powell diversas vezes, quando fui convidado a me juntar aos escoteiros em volta de seu fogo de conselho, quando escutei com atenção suas histórias.” Porque o intrépido acampador, o “Chefe dos Escoteiros” e o estrategista militar tinha permitido que eu participasse somente posso especular. Talvez tenha sido para ver a reação de outros rapazes, além daqueles que tinha trazido para a ilha. Também depoimento em (3)
Na 4ª edição do livro “El Movimiento Scout Mundial” de David Masnata de Quesada, ex-Comissário Internacional da antiga ‘Asociación de Scouts de Cuba e Assessor Jurídico do Conselho Interamericano de Escotismo, editada em 1968, o mesmo cita Baden-Powell num texto da página 17: “Então reuni uma tropa de vinte e quatro rapazes, de todas as classes, que vieram a acampar comigo para provar a experiência.”
Quem teria sido o vigésimo quarto rapaz?
(1) http://pinetreeweb.com/bp-listener.htm
(2) http://pinetreeweb.com/reynolds8.htm
(3) http://www.vicscouts.asn.au/CentenaryScouting/docs/The%20Beginnings%20of%20Scouting.pdf
Escrito por Coruja Anã às 09h42
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Cultura Escoteira ou Culturas Escoteiras?
Texto de Jorge Carvalho do Nascimento
É importante verificar as dificuldades que existiram em diferentes Estados nacionais para que estes se apropriassem da proposta do Escotismo e a adaptassem às suas necessidades, sem desfigurá-la, construíssem o Escotismo em cada uma das sociedades, considerando as diferentes necessidades e as distintas formas de enraizamento cultural. Por isto, o Escotismo deve ser considerado como uma cultura, que se ajustou a diferentes culturas infantis e juvenis. É possível inferir da contribuição de Dominique Julia ao conceito de cultura escolar elementos que contribuem para o entendimento da cultura escoteira. Julia apresenta “a cultura escolar como um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas sociopolíticas ou simplesmente de socialização)” (1).
Tomando por empréstimo a interpretação que faz este autor, é possível dizer que a cultura escoteira constituiu um conjunto de normas que definiram valores e condutas a inculcar, através de práticas que levaram à auto-incorporação desses valores, normas e comportamentos, que expressaram objetivos religiosos, da vida coletiva e dos interesses individuais. Assim, cultura escoteira foi, acima de tudo, cultura infanto-juvenil que se afastou da cultura escolar e da cultura familiar.
Haver compartilhado essa cultura aproxima os indivíduos pelas marcas que restaram na memória destes, através dos registros que ficaram em fotografias, pela sensação de pertencimento, de comunhão, de uma certa intimidade que reduz distâncias entre todos, que faz com que todos se regozijem naqueles que fizeram sucesso, dentre muitos, como se fora uma obra coletiva. Todos unidos pelas imagens que restaram dos acampamentos, das solenidades, das festas, das reuniões, das histórias de vida, do relacionamento com os dirigentes, do uso dos uniformes.
A cultura escoteira, portanto, expressou toda a vida do escoteiro, no mesmo sentido empregado por Viñao Frago para explicitar o que compreende por cultura escolar (2): fatos e idéias, mentes e corpos, objetos e condutas, modos de pensar, dizer e fazer, o espaço e o tempo das práticas, as práticas discursivas e as tecnologias que foram próprias ao fazer do Escotismo. Apropriado por distintas sociedades, o movimento escoteiro gestou diferentes culturas escoteiras, algumas delas razoavelmente distanciadas do projeto concebido pelo general Baden-Powell. Assim, da mesma maneira que Viñao Frago fala de culturas escolares, é razoável afirmar-se a existência de culturas escoteiras, no plural, para distinguir os modos através dos quais o Escotismo foi apropriado. O conceito de culturas escoteiras, portanto, diz respeito a um conjunto de teorias, idéias, princípios, normas, pautas, rituais, inércias, hábitos e práticas. Formas de fazer e pensar, mentalidades e comportamentos sedimentados sob a forma de tradições, regularidades, regras do jogo, tal como observado em relação às culturas escolares.
Assumir as práticas do Escotismo como cultura escoteira é uma tomada de posição que revela para o pesquisador a necessidade de compreender a configuração histórica do Escotismo na sua unidade, a partir de distintas formações sociais. Entender os vários caminhos que o Escotismo utilizou nas suas prédicas civilizatórias, oferecendo formação aos seus jovens adeptos, produzindo um passado comum a todos eles, um patrimônio cultural coletivo. Daí a importância de investigar o modo através do qual escoteiros e escotistas rememoram suas experiências, as maneiras através das quais estabeleceram relações, utilizaram estratégias, produziram a si como sujeitos da História. A História da Educação necessita entender esse conjunto de práticas não apenas pelos olhares dos críticos do Escotismo, mas também em face dos olhares dos próprios agentes do movimento e dos familiares dos escoteiros.
É necessário observar que o êxito do movimento criado por Baden-Powell fez com que surgissem vários projetos similares ao longo das primeiras décadas do século XX, boa parte deles por discordar de alguns fundamentos do Escotismo. Propostas dissidentes que muitas vezes são apanhadas pelos analistas, como se estas fossem próprias àquilo que propunha o pedagogo inglês. Exemplos como o dos National Peace Scouts, os Escoteiros Nacionais da Paz, que se constituíram em nome da defesa do pacifismo; o Empire Scouts, os Escoteiros do Império, movimento claramente militarista que se organizou na Inglaterra; ou o British Boy-Scouts, os Escoteiros Britânicos, defensores de um nacionalismo agressivo. Ou, o movimento fundado por John Hargrave, no qual Escotismo e misticismo se confundiam na difusão de valores medievais.
NOTAS
(1) - Cf. JULIA, Dominique. “A cultura escolar como objeto histórico”. In: Revista Brasileira de História da Educação. Campinas: Autores Associados, 2001, janeiro/junho, nº 1, p. 9-44. p. 10.
(2) - Cf. VIÑAO FRAGO, António. “Historia de la educación e historia cultural”. In: Revista Brasileira de Educação. Vol. 1, n. 0, p. 69.
Escrito por Coruja Anã às 21h47
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Mais um Membro
Caros leitores,
Abaixo, segue um texto do Professor Jorge Carvalho do Nascimento, professor na Universidade Federal de Sergipe e mais um membro da Patrulha Jaguatirica.
Um belo artigo para o nosso deleite.
Escrito por Coruja Anã às 15h56
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Escotismo, História da Educação e Memória
Texto de Jorge Carvalho do Nascimento
O movimento escoteiro é uma forma de associação voluntária (1), uma organização não-governamental internacional. Os principais estudos sobre o Escotismo publicados no Brasil por pesquisadores ligados ao campo da História da Educação, contudo, costumam analisar o Escotismo apenas a partir de alguns aspectos sob os quais o projeto de Baden-Powell foi apropriado no país, reduzindo-o a uma proposta político-ideológica de construção da nacionalidade. Assim, o Escotismo é visto como mero movimento de militarização da infância, prática de natureza patriótica, cívico-militar presente na escola primária no início do século XX, ao lado da ginástica e dos exercícios militares. O projeto de Baden-Powell foi reduzido, muitas vezes, no Brasil, ao conjunto de práticas do Escotismo escolar dominantes nas décadas de 10 e 20 do século passado e identificado como movimento militarista nacionalista na Educação brasileira.
Em algumas ocasiões, para o pesquisador de História da Educação, analisar práticas de Educação extra-escolar como o Escotismo é, em certa medida, ainda deparar-se com aquilo que pode causar alguma estranheza. Não obstante, contactar com aquilo que não é usualmente objeto de estudo do campo facilita observar as semelhanças e diferenças em face das possibilidades de compreender os objetos convencionais de estudo da área, mostrando características universais e particulares. Diante de objetos como o Escotismo, é necessário que o historiador da Educação seja capaz de resistir às tentações do julgamento do passado e tente extrair dele apenas os sentidos que originalmente ali estavam postos, compreendendo as prerrogativas que são próprias à escola como agência educativa e aquelas que estão em outros espaços, outras agências de Educação organizadas pelas práticas da vida social.
Como a escola, o movimento escoteiro é um lugar de memória. Tal como afirma Maria Cecília Cortez Christiano de Souza acerca da instituição escolar, é possível dizer também quanto ao Escotismo: “Quando o olhar pode atravessar a espessura do tempo, distingue vestígios reconhecíveis de sua história” (2).
Para entender aquilo que o lord Baden-Powell propôs e colocou em prática é fundamental que se compreenda a sua maneira de pensar, captar as diferenças da sua proposta em face do que tal projeto pretendia ser, observando as recomendações metodológicas formuladas por Robert Darnton, quanto a arbitrariedade utilizada para classificar os objetos de estudo: “Ordenamos o mundo de acordo com categorias que consideramos evidentes simplesmente porque estão estabelecidas. Ocupam um espaço epistemológico anterior ao pensamento e, assim, têm um extraordinário poder de resistência. Postos diante de uma maneira estranha de organizar a experiência, no entanto, sentimos a fragilidade de nossas próprias categorias e tudo ameaça desfazer-se. As coisas se mantêm organizadas apenas porque podem ser encaixadas num esquema classificatório que permanece inconteste” (3).
É possível captar as práticas do Escotismo, com o auxílio de categorias como práticas e representações, difundidas no campo da História da Educação principalmente por Roger Chartier, bem como em face das contribuições que se pode extrair de categorias de análise como táticas e estratégias, defendidas por Michel de Certeau. Para este último, é importante explicitar o processo de produção do discurso historiográfico, o modo através do qual os fatos são tornados inteligíveis, os sentidos que são dados aos registros documentais, a narrativa e a interpretação. É necessário confrontar constantemente teoria e empiria, de modo a reinventar os conceitos, considerando não apenas as certezas teóricas, mas também aquilo que revelam os registros documentais.
Portanto, é fundamental inventariar as práticas do movimento escoteiro, compreendendo ser este um importante objeto da História da Educação, buscando a sua etnografia, as suas evocações, a sedução produzida por este movimento na memória daqueles que foram escoteiros e escotistas. Sedução que se expressou nas suas práticas de normalização social e nas representações que se fez de tais práticas. Participar do movimento escoteiro era assim, participar do universo de uma nova cultura, uma cultura que oferecia uma visão de mundo articulada em torno de uma proposta de auto-formação, que produzia forte impacto nas emoções, nas paixões, na paisagem natural, na paisagem urbana, nos processos de aprendizagem da vida, nas experiências de contato com a natureza, na produção de uma identidade cidadã.
Notas:
(1) - As associações voluntárias são também conhecidas como associações livres ou sociedades de idéias. Esse modelo associativo começou a se constituir entre os Ingleses, a partir do século XVII. Todavia, foi na América do Norte que o modelo mais se desenvolveu. “Os ingleses dos Estados Unidos encontraram-se (...), desde o início, divididos num grande número de pequenas sociedades distintas que não se prendiam a nenhum centro comum, e foi necessário que cada uma dessas pequenas sociedades cuidasse de seus próprios negócios, visto que não se percebia em parte alguma uma autoridade central que devesse naturalmente e pudesse facilmente se encarregar deles”. Cf. TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Livro I. Leis e costumes. 1a. ed. 2a. tiragem. São Paulo, Martins Fontes, 2001. p. 456.
(2) - Cf. SOUZA, Maria Cecília Cortez Christiano de. Escola e memória. Bragança Paulista/SP: IFAN-CDAPH/Editora da Universidade São Francisco, 2000. p. 7.
(3) - Cf. DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da História Cultural francesa. Tradução de Sônia Coutinho. Rio de Janeiro, Graal, 1986. p. 248.
Escrito por Coruja Anã às 15h53
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Informação Necessária
Essa é uma obra independente, não oficial ou autorizada pela UEB.
Essa informação se faz necessária ante a Resolução número 010/99 da Diretoria Nacional da UEB.
Escrito por Coruja Anã às 09h39
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Escrito por Coruja Anã às 23h30
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Mais Membros
Companheiros,
Apresento-lhes mais um membro da Patrulha Jaguatirica: Maurício Moutinho.
Dono de um senso de humor impagável, como cientista desconhece tabus e como membro do CCME busca incansavelmente a história do Escotismo. Melhor para todos nós.
Foi Diretor-Presidente da Região Escoteira do Rio de Janeiro, na época que ela experimentou o seu mais notável crecimento. Enfim, um Dirigente digno de já constar na história que ele tanto persegue.
Escrito por Coruja Anã às 19h00
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Tio Sam e o Escotismo para todos - Como a Igreja seqüestrou o Escotismo - 1ª parte
Texto de Shaun M. Joynson
Tradução de Maurício Moutinho
A ilha de Brownsea não aparece em muitos livros de história como local de uma revolução. Mas é, porque esse pequeno pedaço de terra áspera repleta de mosquitos ao largo da costa de Dorset é o lugar onde uma experiência social audaz foi conduzida por um homem, cujo status como um revolucionário pode melhor ser julgado consultando a lista dos livros mais vendidos de todos os tempos.
No topo da lista está a Bíblia, seguida de perto pelo Alcorão. Em terceiro lugar está o “Pequeno Livro Vermelho” de Mao Zedong; em quarto lugar vem o “Escotismo para Rapazes” de Robert Baden-Powell.
A experiência social audaz de Baden-Powell consistiu em um acampamento no verão de 1907, onde 20 meninos de várias classes sociais foram reunidos em grupos para trabalhar numa série de atividades em equipe que ele tinha projetado.
Os meninos vieram de todos os caminhos da vida. Alguns, vieram das melhores escolas; outros, dentre os pobres de Londres. Suas diversas origens não fez diferença e o surpreendente sucesso desse primeiro acampamento escoteiro estimulou Baden-Powell a escrever o “Escotismo Para Rapazes”, que foi publicado em capítulos na primavera de 1908.
Atualmente, as pessoas dizem que o Escotismo foi criado por Baden-Powell - mas não. Pretendia-se que o Escotismo fosse um guia para as atividades que poderiam ser dirigidas por líderes de outras organizações da juventude existentes naquele tempo – incluindo a cristã Brigada de Meninos.
Mas o que aconteceu foi que as CRIANÇAS começaram comprar o Escotismo para Rapazes em grandes quantidades, e assim é que foi estimulado a ajustar as próprias patrulhas escoteiras para conduzir as novas atividades.
Um desses jovens de 14 anos, Harold Price, de Chiswick, do lado leste de Londres, formou a Primeira Patrulha Escoteira de Chiswick com um grupo de amigos. Brevemente, outros jovens pediram para juntarem-se à nova patrulha, fazendo com que Harold pedisse ajuda.
Harold aproximou-se de Tom Foley, organista de sua igreja e um notável homem de vida ao ar livre, que concordou em ser o seu líder. A etapa seguinte era encontrar um lugar de reunião, assim que Harold e Tom pediram para sua igreja, mas encontraram um problema imediato.
A igreja ficou feliz em oferecer um salão de reuniões, mas somente se eles pudessem recrutar jovens que fossem potenciais crentes.
Entretanto, no círculo de amigos de Harold estavam incluídos judeus, católicos, batistas e alguns ateus.
Assim, a oferta da igreja foi recusada em favor de um quarto no porão de uma loja local onde a 1a Tropa Escoteira de Chiswick começou a se encontrar em setembro 1908.
Harold declarou que a tropa seria (obrigatoriamente) aberta para todos os jovens – e 90 anos mais tarde, mulheres – não obstante se professassem uma fé ou não.
Esse princípio era incutido em cada membro do 1o Chiswick daí em diante, incluindo eu mesmo, quando eu me tornei seu líder no ano de 1994.
Infelizmente, o 1o Chiswick parou de funcionar em 2003, e integrou-se em um grupo vizinho, fundado em 1909 por Hubert Martin, um homem mais tarde teve papel preponderante à propagação do Escotismo em todo o mundo
E o Escotismo espalhou-se. Hoje, há 28 milhões de escoteiros no mundo. Somente 6 países não têm escotismo e em torno de meio bilhão de pessoas foram escoteiros desde 1907. Na Grã Bretanha, estima-se que cerca de 70% da população masculina adulta foi escoteiro em algum estágio em sua juventude. E em termos de tamanho, os Jamborees Escoteiros Mundiais realizados a cada 4 anos, tornam as olimpíadas em algo pequeno.
As razões para o sucesso do Escotismo são simples. Primeiro, oferece atividades que têm apelo aos jovens. Duas semanas atrás, eu levei dezessete jovens de 6-8 anos para uma viagem de um dia para sua primeira atividade escoteira em campo. Apesar da atrocidade do tempo, eles participaram ansiosamente de atividades escoteiras indefinidamente, como caminhando, escalando e cozinhando salsichas numa fogueira enfumaçada.
O Escotismo também funciona porque tenta estar aberto a tudo. Como Baden-Powell - um homem que raramente foi à igreja - dito em 1924, “nós acreditamos que nenhum grupo de crenças seja superior a outra".
Infelizmente, um país onde esta mensagem não foi ouvida são os Estados Unidos da América.
De acordo com a fábula, o Escotismo veio a América porque em 1909 um Escoteiro desconhecido ajudou a um turista americano William D. Boyce a encontrar seu caminho através de um nevoeiro londrino. Boyce ofereceu ao menino algum dinheiro por seu auxílio, mas o menino recusou-o, dizendo que como um Escoteiro não poderia aceitar o pagamento por ser útil. Boyce ficou bastante impressionado que pediu ao Escoteiro para explicar-lhe a idéia de Baden-Powell e em conseqüência, Boyce retornou para casa para começar os escotismo na América, conhecidos agora como a BSA – Boys Scouts of America.
Como em outros países – incluindo a Grã Bretanha – as igrejas nos Estados Unidos rapidamente viram um oportunidade para usar o Escotismo para seus próprios fins. Mas aqui e no resto do mundo (incluindo o Vaticano, onde o Papa é considerado um “famoso egresso” do escotismo) houve resistência a essas movimentações. Entretanto, nos Estados Unidos, o aperto foi aumentando à medida que o tempo passou.
Hoje há cerca de 4,5 milhões de Escoteiros nos Estados Unidos, mas em muitas áreas, é virtualmente impossível ser escoteiro sem ser membro de uma igreja. Isto ocorre porque a igreja protestante opera a maioria dos Grupos Escoteiros americanos. Há também 9.600 Grupos católicos e 4.300 Grupos luteranos.
De acordo com a página da BSA na internet, há também uma tropa budista, mas judeus e muçulmanos aparentemente podem realmente tornarem-se escoteiros. Aliás, podem tomar parte de um série de atividades “baseadas no escotismo”.
Os assim considerados Grupos Escoteiros abertos ou independentes, duramente resistiram até a direita religiosa começar a estalar o chicote conservador em fins dos anos 1970.
Embora não houvesse nenhuma regra real permitindo ações desta forma, o BSA expulsou um voluntário adulto do Movimento Escoteiro, chamado Tim Curran, porque ele admitiu ser gay. Ele recorreu à justiça e em 1992, finalmente perdeu a ação.
A história de Curran foi lida pelo chefe escoteiro da Califórnia, Dave Rive, um verdadeiro nobre escoteiro. A opinião de Rice – um heterossexual e antigo membro da Igreja Presbiteriana – era a de que a orientação sexual é uma questão pessoal e irrelevante para alguém ser ou não um escoteiro e, surpreendentemente, os jovens dessa tropa apoiaram essa visão.
Entretanto, a BSA, que estimula seus membros a serem “moralmente corretos”, discordou e expulsou Rice do escotismo, após 59 anos.
Escrito por Coruja Anã às 18h59
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Tio Sam e o Escotismo para todos - Como a Igreja seqüestrou o Escotismo - 2ª parte
Como resultado, Rice criou a organização “Escotismo para Todos”, que lutava pelo fim do banimento dos gays. Mas nada aconteceu demais para a organização, até que um antigo escoteiro de Rice tentou obter a insígnia de cidadania.
A principal tarefa para esta especialidade é que o Escoteiro deve escolher um tema e então escrever uma carta escolhido para um político. Após discutir o assunto com seu pai, Steven Cozza, da Califórnia, escolheu a proibição de gays como tema.
Ele fez poucos progressos com os políticos. Mas quando escreveu para a Revista American Scouting, ficou surpreso ao receber várias centenas de mensagens apoiando sua carta.
Em seguida, ele fez um abaixo-assinado, reunindo 35 mil assinaturas em 50 estados e 18 diferentes países. Assim, o interesse da mídia veio.
Essa foi uma dura surpresa, apesar de tudo Cozza tinha uma imagem poderosa. Estava com 13 anos de idade e era um Eagle Scout. Atualmente, nos Estados Unidos, Eagle Scouts são considerados com extremo respeito e até reverência.
Eagle Scout é o ponto máximo que um escoteiro pode alcançar nos Estados Unidos. Entre eles incluem-se presidentes, astronautas e capitães da industria.
Por essa razão, o fato de que um Eagle Scout provocava sua própria organização foi um enorme embaraço para a BSA, sobretudo quando seu rosto jovem começou aparecer regularmente na TV e em capas de revistas através dos Estados Unidos e também quando falou em programas de variedades e em demonstrações pelo país.
Em consonância com sua preocupação com o abuso homofóbico e após ter sido entrevistado por revistas gays, Cozza continuou com sua campanha. “Escotismo para Todos” rapidamente tornou-se uma organização nacionalmente conhecida, com seus próprios escritórios, sítio na internet e fundos de advindos de instituições de caridade.
Poucos anos mais tarde, “Escotismo para Todos” estendeu sua campanha para incluir ateus e mulheres, dois outros grupos que foram especificamente proibidos de juntarem-se ao BSA. Mas a BSA continuou dizendo apenas que era uma organização privada e como tal poderia estabelecer suas condições para associação.
Em junho de 2000, a Suprema Corte dos Estados Unidos concordou com a BSA. Outro líder, James Dale, que também foi expulso por ser gay, perdeu a ação quando os juízes determinaram que a BSA tinha o direito constitucional, como organização privada, de excluir homossexuais porque poderiam derrogar da organização sua mensagem expressiva.
A BSA deleitou-se com o resultado. Mas seu deleite teve vida curta.
Cozza e a “Escotismo para Todos” mudaram a estratégia, sem ferir a lei. Eles contataram centenas de autoridades locais e outros patrocinadores do escotismo, incitando-o a retirarem os fundos de apoio à BSA, uma vez que ele não era uma organização aberta a todos. O resultado final para a BSA foi catastrófico porque as escolas estatais por todo os EUA pararam de apoiar, financiar e dar tratamento especial para a BSA. Antes daquela sentença, as escolas permitiam que as Tropas Escoteiras usassem suas instalações gratuitamente ou com taxas extremamente reduzidas. Mas agora, não mais.
Fundos ou privilégios especiais também foram retirados por centenas de autoridades locais através dos Estados Unidos, assim como muitas organizações locais e nacionais associadas com as polícias, bombeiros, hospitais e instalações da forças armadas.
Perderam também incontáveis milhões de empresas patrocinadoras e empregados de grandes corporações tais como a J.P. Morgan e Merrill Lynch, para as quais, segundo a “Escotismo para Todos”, a BSA discrimina pessoas de uma forma que contraria diretamente suas próprias políticas de oportunidades iguais para todos.
Mais importante, como resultado da ação do Escotismo para Todos, a BSA sofreu cortes em seus fundos de pelo menos 15 capítulos da United Way, uma organização centralizadora de fundos oriundos de doações de caridade, que distribui recursos para grupos comunitários, da mesma forma como as loterias fazem hoje.
Até mesmo muitos grupos religiosos retiraram seu financiamento como conseqüência da decisão da Corte Suprema, alegando que as ações da BSA são incompatíveis com os ideais escoteiros.
Eles também enfrentaram muitas críticas de americanos notáveis, tais como Michael Bloomberg, Steven Spieberg e o Presidente Clinton.
Vário líderes da BSA através da América propuseram que se permitissem que os grupos decidissem individualmente ter membros e líderes gays. E muitos Grupos Escoteiros e Conselhos Locais Escoteiros retiraram-se também da BSA porque não poderiam continuar a solicitar o dinheiro público enquanto houver políticas discriminatórias.
Uma idéia do desespero da BSA pode ser vista na sustentação feita em 2005 para o “Support our Scouts Act” que está tramitando no Congresso.
Como afirma a BSA “a lei ajudará garantir o respeito para os direitos constitucionais dos Escoteiros e de outras organizações da juventude e da comunidade em suas transações com governo”. Em outras palavras, eles estão tentando beneficiar os Escoteiros dentro do sistema dos Estados Unidos enquanto praticam a discriminação contra gays, mulheres e ateus.
Vindo como eu de um dos primeiros Grupos Escoteiros do mundo, francamente acho essa proposta desconcertante se não frightening, porque a última pessoa que tentou inserir o Escotismo no Estado foi Mussolini, e quando sua tentativa falhou, simplesmente substituiu e Escotismo pelo seu próprio movimento.
O Escotismo não é parte de nenhum sistema organizados, seja do governo ou não. Não é um braço de nenhuma agência, uma filial de serviços sociais ou educacionais de qualquer governo ou grupo religioso. É uma organização não-política, interdenominacional independente, auto-dirigida, conduzida principalmente por voluntários que propiciam atividades agradáveis às crianças - e aos adultos - que coincidentemente, também os beneficiam.
Todos dizem – para o bem ou para o mal – acerca do Escotismo, é que permanece o que Baden-Powell sempre disse que deveria ser principalmente, um jogo para os jovens e que os adultos também podem jogar.
Obrigá-los a praticar o Escotismo como parte do Estado, irá destruí-lo – assim como tendo regras proibindo certas pessoas de praticá-lo por nenhuma outra razão senão o fato de não terem religião, serem do sexo ou sexualidade errada.
Diferentemente dos dirigentes escoteiros norte americanos, o mundo aprendeu essa lição anos atrás. Mas, graças a Steven Cozza e o “Escotismo para Todos”, a revolução está chegando aos Estados Unidos, e quando isso acontecer, o Escotismo será muito melhor praticado por TODAS as crianças – porque, como os escritos de Baden-Powell mostraram de forma consistente, era exatamente o que ele desejava.
Shaun M. Joynson é membro da NSS.
©2005 National Secular Society (Limited by Guarantee).
Escrito por Coruja Anã às 18h49
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Apresentação rápida dos autores dos textos
Companheiros,
Esses são os primeiros textos preparados para você por alguns dos membros da Patrulha Jaguatirica.
Celso Correia Neves é o controlador do calendário. Recolhendo todas as datas marcantes da história do Escotismo, conseguiu manter uma impressionante cronologia que hoje está à sua disposição. Mas ele ainda aceita contribuições.
Moacyr Mallemont é nosso decano. Fez o Curso em Gilwell Park com John Thurmann, veio a conhecer pessoalmente Lady Olave e hoje, vivendo em Camboriú, SC, fica lembrando os melhores tempos do mundo e, ao mesmo tempo, torce fanaticamente pelo seu Fluminense - um pequeno deslize perdoável! :-)
Ricardo Coelho dos Santos é engenheiro e escritor, atual Diretor de Formação da Região Espírito Santo.
Boa leitura!
Sempre Alerta para Servir Coruja Anã
Escrito por Coruja Anã às 23h00
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